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Fresca como o calor da morte

Luiz Carlos Torres
Fresca como o calor da morte Projeto Eu não sou cachorra não / Luiz C. Torres

Fresca como o calor da morte - a história de uma canção

Por Luiz Carlos Torres*

"Choro de Marielle" foi uma canção feita no mesmo ano de morte da vereadora em 2018. Quase certeza, dois ou três dias depois do fato.  Porém, a minha intenção foi expressar solidariedade à professora Helaine Alves, minha colega de escola no Bairro do Catumbi, que soube eu, na data da morte, ela também ser igualmente muito amiga da vereadora assassinada e sua família. 

Essa história que vem do fato de minha amiga, Helaine Alves, uma menina sensível e maravilhosa; que trás na nunca uma pequena tatuagem de sua vocação política pela esquerda; também lecionava em escolas públicas da comunidade da Maré, onde viu essa amizade ficar mais fortalecida, não só com a Marielle, mas com toda família da vereadora que ainda morava na comunidade. 

Claro que fui pego pela violência do fato, como cidadão e do mesmo campo político da vereadora assassinada. Marielle, uma mulher preta, com mandado parlamentar na vereança da cidade maravilhosa, sem dúvida, de grande militância nas bases dos movimentos sociais mais autênticos do município do Rio de Janeiro, caiu alvejada sem aparente explicação no calor das primeiras noticias. 

Com esses atributos de luta foi morta violentamente sem direito a qualquer defesa numa emboscada sem  mandante, segundo as primeiras impressões policiais, onde se deixou pensar nas primeiras avaliações que o crime pode ter sido obra de alguma fatalidade ou engano. Hoje, depois do tempo e da condução decente que os fatos vieram a ser apurado, com a chegada do presidente Lula ao poder, depois de 2022. 

Pessoalmente, nem fui eleitor da vereadora eleita em 2016! Mas o impacto de sua morte me chegou de forma muito afetiva pela reação sofrida e choro da professora Helaine Alves. Quando sós, eu e ela, na sala dos professores do CETAG; no bairro do  Catumbi, ela me deu o relato emocionante, dizendo que antes da celebridade que Marielle vinha galgando pela atuação progressista de seu mandado, ela era uma amiga do chão, da vida, das histórias de quem você pode ir a casa pela manhã e tomar um café. 

Então, a partir daí, a morte da vereadora e de seu motorista no atentado virou uma chave na minha cabeça de um individuo que já viveu por tantas outras perdas em contextos de violência ao longo da vida. Eu nasci e me criei na primeira Favela!

"Choro de Marielle" é a canção que fiz dia seguinte após a morte da vereadora, por esse momento terrível de nossa história política e social. Para finalizá-la,  no mesmo dia, apresentei ao parceiro Elias Sobrinho, que concluiu parte da melodia sobre a letra que já havia escrito e eu mesmo musicado os primeiros versos. Hoje com mandantes presos, assassinos condenados, porém ainda com algumas dúvidas nos ar (lembram do porteiro do condomínio do Bolsonaro?), minha canção de oito anos de vida é fruto de oito anos dessa terrível morte. Será que ainda se tem coisa, a saber? Deus se é por nós, quais são os nãos?    


Para ouvir, digite esse endereço na barra de rolagem: https://www.facebook.com/share/p/1BBwcRYh6x/

*Luiz Carlos Torres é professor, compositor, escritor e poeta quilombola, com identidade territorial na Pequena África no território da Pedra do Sal e da primeira Favela.

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