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SAÚDE OCUPACIONAL NOS PORTOS

Marcelo Vasques
SAÚDE OCUPACIONAL NOS PORTOS Alessandra Dias/Divulgação PVP

SAÚDE OCUPACIONAL NOS PORTOS

O RISCO QUE NEM SEMPRE É VISÍVEL

Em um ambiente marcado por operações críticas, máquinas, cargas, ruído e pressão operacional, prevenir doenças ocupacionais exige mais do que cumprir procedimentos: exige conhecer profundamente a realidade do trabalho.

Por Alessandra Dias | Técnica de Segurança do Trabalho

“No ambiente portuário, nem todo risco produz um acidente imediato. Alguns se acumulam silenciosamente até se transformar em um problema de saúde.”

O porto é movimento.

É o som dos equipamentos, o deslocamento de cargas, a chegada e saída de navios, o trabalho nos cais, pátios, armazéns e porões. É um ambiente onde decisões precisam ser tomadas rapidamente e onde diferentes profissionais, equipamentos e operações convivem diariamente.

Nesse cenário, falar de Segurança do Trabalho significa falar não apenas sobre acidentes, mas também sobre aquilo que muitas vezes não é percebido imediatamente: a preservação da saúde do trabalhador ao longo de sua trajetória profissional.

As doenças ocupacionais representam um desafio particularmente importante porque, ao contrário de um acidente, seus efeitos podem se desenvolver de maneira gradual.

O trabalhador pode não perceber inicialmente que determinada exposição, postura, esforço, agente ambiental ou condição de organização do trabalho está contribuindo para o surgimento de um problema.

E é justamente nesse intervalo entre exposição e adoecimento que a prevenção precisa atuar.

QUANDO O RISCO NÃO É IMEDIATAMENTE VISÍVEL

No ambiente portuário, os riscos ocupacionais podem assumir diferentes formas.

A exposição ao ruído, por exemplo, exige atenção permanente. Operações com máquinas e equipamentos podem gerar níveis elevados de pressão sonora e, quando a exposição não é adequadamente controlada, podem existir impactos à saúde auditiva.

Da mesma forma, atividades que envolvem esforço físico, movimentação manual de materiais, posturas inadequadas ou movimentos repetitivos podem contribuir para problemas musculoesqueléticos.

Também existem riscos relacionados a agentes químicos, poeiras, condições climáticas, vibrações e outros fatores presentes em determinadas operações.

E há ainda uma dimensão que ganhou cada vez mais espaço nas discussões contemporâneas de SST: os fatores psicossociais relacionados ao trabalho.

Pressão excessiva, sobrecarga, conflitos, assédio e problemas na organização do trabalho também precisam ser observados dentro de uma estratégia moderna de prevenção.

A grande questão é que muitos desses riscos não deixam uma marca imediata.

Eles podem se acumular.

Por isso, prevenir doenças ocupacionais significa enxergar além do acidente que pode acontecer hoje e olhar para a saúde que precisa ser preservada durante toda a vida profissional.

O OLHAR DE QUEM ESTÁ NO CAMPO

Ao longo de oito anos atuando como Técnica de Segurança do Trabalho em operações portuárias, principalmente em atividades de campo, aprendi que existe uma diferença importante entre conhecer um procedimento e conhecer a realidade da operação.

O documento é fundamental; a análise de risco é fundamental.

O treinamento é fundamental.

Mas nenhum desses instrumentos substitui a presença do profissional de Segurança no local onde o trabalho acontece.

É no campo que conseguimos perceber detalhes que nem sempre aparecem em uma documentação: uma postura inadequada, uma exposição que mudou, um equipamento utilizado de maneira diferente, uma dificuldade relatada pelo trabalhador ou uma condição operacional que passou a oferecer um risco adicional.

A prevenção começa quando conseguimos enxergar aquilo que ainda não se transformou em acidente ou doença.

DO DIAGNÓSTICO À TRATATIVA

Quando existe suspeita ou identificação de uma doença relacionada ao trabalho, a tratativa precisa ser conduzida com responsabilidade técnica e integração entre as áreas envolvidas.

Não basta simplesmente afastar o trabalhador da atividade ou entregar um novo equipamento.

É necessário compreender o contexto.

  1. O que aconteceu?
  2. Qual exposição pode estar relacionada ao problema?
  3. A condição de trabalho permanece?
  4. Outros trabalhadores estão expostos ao mesmo risco?
  5. Os controles existentes são suficientes e estão funcionando?

Essas perguntas direcionam uma investigação mais consistente.

A empresa deve avaliar os riscos ocupacionais existentes, analisar as condições reais da atividade e, quando aplicável, revisar seus controles preventivos, procedimentos e programas de Segurança e Saúde no Trabalho.

Também é fundamental a integração entre SST, Saúde Ocupacional, Recursos Humanos, liderança operacional e trabalhadores.

A doença do trabalhador não deve ser tratada como um problema isolado.

Ela pode representar um indicador de que determinada condição de trabalho precisa ser reavaliada.

A EMPRESA ESTÁ PREPARADA?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para o setor portuário.

Uma organização pode possuir procedimentos, programas, treinamentos e documentos de SST e, ainda assim, precisar evoluir na forma como transforma essas ferramentas em prevenção efetiva.

Estar preparado significa possuir capacidade para:

Identificar → Avaliar → Controlar → Monitorar → Corrigir → Prevenir.

Esse ciclo precisa estar integrado à operação.

O gerenciamento de riscos não pode existir somente no papel.

O PGR, as avaliações ambientais, o acompanhamento ocupacional, os treinamentos, as inspeções e os controles operacionais precisam conversar entre si.

Mais importante ainda: os resultados precisam retornar para a operação.

Se uma avaliação identifica uma exposição acima do esperado, é necessário agir.

Se um trabalhador relata desconforto relacionado à atividade, é necessário investigar.

Se uma inspeção encontra uma condição inadequada, é necessário corrigir.

Prevenção não termina na identificação do risco. Ela termina quando o risco é efetivamente controlado e monitorado.

O TRABALHADOR COMO FONTE DE INFORMAÇÃO

Existe uma ferramenta de prevenção que nenhuma tecnologia substitui completamente: a escuta do trabalhador.

Quem executa determinada atividade diariamente conhece detalhes que podem não estar descritos em um procedimento.

Por isso, perguntas simples podem gerar informações extremamente importantes:

  1. “Essa atividade exige muito esforço?”
  2. “Você sente algum desconforto durante ou depois do trabalho?”
  3. “Esse equipamento facilita ou dificulta sua atividade?”
  4. “Existe algum momento da operação em que você se sente mais exposto?”

Ouvir não significa aceitar automaticamente qualquer interpretação sobre a causa de um problema.

Significa criar condições para que informações relevantes sejam identificadas e posteriormente avaliadas tecnicamente.

Essa cultura de diálogo fortalece a prevenção.

EPI É PROTEÇÃO. MAS NÃO É A ÚNICA RESPOSTA.

Outro ponto que precisa ser constantemente reforçado é que a prevenção não pode se resumir à entrega de equipamentos de proteção individual.

O EPI é uma importante barreira de proteção, mas a gestão de riscos deve buscar, prioritariamente, controles que atuem sobre a fonte, o processo e o ambiente, conforme a hierarquia de medidas de prevenção aplicável.

Em uma operação portuária, isso pode significar:

melhorar equipamentos e processos;

implantar ou aperfeiçoar proteções coletivas;

reduzir ou eliminar exposições;

adequar procedimentos;

melhorar a organização das atividades;

realizar avaliações ambientais;

capacitar as equipes;

utilizar corretamente os EPIs necessários;

acompanhar continuamente a efetividade dos controles.

A pergunta não deve ser apenas:

“O trabalhador está usando EPI?”

A pergunta precisa ser:  “O risco está adequadamente controlado?”

Essa mudança de perspectiva representa uma evolução importante na cultura de Segurança.

SAÚDE MENTAL: UM NOVO OLHAR PARA A OPERAÇÃO

Durante muito tempo, falar em Segurança do Trabalho significava concentrar a atenção principalmente em acidentes, máquinas, equipamentos e agentes ambientais.

Hoje, a discussão é mais ampla.

A organização do trabalho e os fatores psicossociais também precisam fazer parte da gestão preventiva.

Em operações caracterizadas por pressão, responsabilidade, jornadas diferenciadas, metas e necessidade de tomada de decisão, é necessário observar como esses fatores podem impactar os trabalhadores.

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