Dra. Núbia Moreira
Doença Renal Crônica
DRCMaria chegou ao pronto-socorro com fraqueza — e descobriu que precisava de diálise
Por Dra. Núbia Moreira*
A doença renal não começou naquele dia. Ela vinha avançando silenciosamente há quase 20 anos.
Maria tinha 50 anos quando chegou ao pronto-socorro apoiada no braço da filha.
Nos últimos dias, sentindo um cansaço diferente. As pernas pareciam pesadas, faltava força para caminhar e até atravessar a sala de casa havia se tornado difícil. Também estava sem apetite, enjoada e mais sonolenta.
Maria achava que precisava apenas descansar.
— Deve ser excesso de trabalho — disse à filha.
Mas os exames mostraram uma situação muito mais grave.
Os rins de Maria já quase não conseguiam filtrar o sangue. Algumas substâncias que deveriam ser eliminadas pela urina estavam se acumulando no organismo. Ela também apresentava anemia e alterações importantes nos sais do sangue.
Após a avaliação da equipe médica, veio a notícia que ela jamais imaginou ouvir:
— Maria, será necessário iniciar a diálise. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois perguntou:
— Mas como isso aconteceu? Eu nunca senti dor nos rins. A resposta estava há quase 20 anos no passado.
Aos 30 anos, a pressão já estava alta
Maria tinha 30 anos quando mediu a pressão durante uma consulta de rotina. Estava elevada.
O médico orientou que ela acompanhasse os valores, mudasse alguns hábitos e retornasse para uma nova avaliação.
Maria, porém, vivia uma fase difícil no trabalho. Dormia pouco, alimentava-se mal e estava sempre preocupada.
Para ela, a explicação parecia óbvia:
— Minha pressão está alta por causa do estresse. Quando eu mudar de emprego, vai melhorar.
Ela não sentia dor, falta de ar ou qualquer outro sintoma. Por isso, não acreditava que pudesse existir um problema sério.
O tempo passou. Maria mudou de emprego, mas não voltou ao médico. A pressão continuou alta.
Aos 35 anos, ela começou o tratamento — mas não manteve
Cinco anos depois, durante uma campanha de saúde, Maria mediu novamente a pressão. O resultado continuava elevado.
Dessa vez, recebeu a prescrição de um medicamento. Tomou corretamente durante algumas semanas, mas, como não sentia diferença, começou a esquecer algumas doses.
Nos dias em que a pressão parecia normal, Maria não tomava o comprimido. Nos dias em que sentia dor de cabeça, voltava a usá-lo.
Ela não sabia que o remédio para pressão não serve apenas para aliviar sintomas. Ele ajuda a proteger o coração, o cérebro, os vasos sanguíneos e também os rins.
A pressão alta pode machucar lentamente os pequenos vasos que fazem a filtração do sangue. Esse processo costuma acontecer sem dor e sem sinais claros.
Aos 40 anos, os primeiros sinais apareceram nos exames
Em um exame realizado para começar a frequentar uma academia, Maria ouviu que sua creatinina estava “um pouco alterada”.
Como o resultado não parecia tão distante do valor considerado normal, ela não se preocupou.
Também não realizou um exame de urina para pesquisar a perda de proteína e não calculou a taxa de filtração dos rins.
Maria continuava urinando normalmente. Para ela, isso significava que os rins estavam funcionando bem.
Mas produzir urina não é a mesma coisa que filtrar o sangue adequadamente.
Uma pessoa pode continuar urinando todos os dias e, ainda assim, já apresentar uma perda importante da função renal.
Aos 45 anos, o corpo começou a dar pequenos avisos
Maria começou a perceber que seus pés ficavam inchados no fim do dia. Atribuiu o problema ao calor e ao longo período que passava sentada.
Também notou que a urina apresentava mais espuma, mas imaginou que fosse algo relacionado ao produto de limpeza do vaso sanitário.
O cansaço aumentou. Como estava entrando na menopausa, acreditou que aquela fosse a explicação.
Os sinais estavam ali, mas eram discretos e podiam facilmente ser confundidos com situações comuns do dia a dia.
A doença renal continuava avançando.
Aos 49 anos, ela já não se sentia como antes
Nos meses anteriores à internação, Maria perdeu o apetite. Algumas comidas passaram a causar enjoo e ela começou a emagrecer sem planejar.
A pele coçava. As pernas inchavam. À noite, dormia mal e, durante o dia, sentia muito sono. Ainda assim, continuou adiando a consulta.
Até que, aos 50 anos, seu corpo não consegue mais compensar a perda da função dos rins. Maria não precisou de diálise porque os rins adoeceram de repente.
Ela precisou de diálise porque a doença avançou durante anos sem ser identificada e tratada adequadamente.
Por que a doença renal pode passar tantos anos despercebida?
Os rins têm uma grande capacidade de adaptação.
Nas fases iniciais da doença, a parte que ainda está funcionando consegue compensar parte da função perdida. Por isso, a pessoa pode não sentir nada, mesmo quando já existe alguma lesão.
Dor nos rins não é o principal sintoma da doença renal crônica. Muitas pessoas não apresentam dor em nenhum momento.
Quando sinais como fraqueza intensa, náuseas, falta de apetite, inchaço, coceira, anemia ou falta de ar aparecem, a função dos rins já pode estar bastante reduzida.
É por isso que a doença renal crônica costuma ser chamada de doença silenciosa.
O que os rins fazem pelo nosso corpo?
Os rins não servem apenas para produzir urina. Eles ajudam a:
● filtrar o sangue;
● eliminar substâncias que o organismo não precisa mais;
● retirar o excesso de água;
● controlar a pressão arterial;
● equilibrar minerais como sódio e potássio;
● participar da produção do sangue;
● contribuir para a saúde dos ossos.
Quando os rins deixam de realizar essas funções adequadamente, diferentes partes do corpo podem ser afetadas.
Quem precisa prestar mais atenção à saúde dos rins?
Algumas pessoas apresentam maior risco de desenvolver doença renal, principalmente aquelas com:
● pressão alta;
● diabetes;
● obesidade;
● doenças do coração;
● histórico familiar de doença renal;
● idade mais avançada;
● doenças autoimunes;
● pedras nos rins ou infecções urinárias de repetição;
● uso frequente de medicamentos que podem prejudicar os rins.
A pressão alta e o diabetes estão entre as principais causas de perda da função renal.
Quem possui alguma dessas condições não deve esperar sentir sintomas para investigar os rins.
Como descobrir uma alteração renal precocemente?
A avaliação começa com exames simples.
A creatinina é medida no sangue e permite calcular a taxa de filtração glomerular, uma estimativa de quanto os rins conseguem filtrar.
O exame de urina pode mostrar sangue, proteínas e outros sinais de lesão renal. Em pessoas com pressão alta ou diabetes, também é importante pesquisar uma proteína chamada albumina.
Dependendo do caso, o médico poderá solicitar ultrassonografia e outros exames.
Avaliar somente a creatinina, sem observar a taxa de filtração e o exame de urina, pode deixar alterações importantes passarem despercebidas.
Descobrir cedo pode evitar a diálise?
Em muitos casos, sim.
Nem toda pessoa com doença renal precisará fazer diálise. Quando o problema é descoberto precocemente, é possível tratar a causa, controlar a pressão e o diabetes, ajustar os medicamentos e adotar medidas que diminuam a velocidade de perda da função dos rins.
Mesmo quando já existe alguma redução da função renal, o tratamento pode ajudar a preservar o funcionamento restante por muitos anos.
A história de Maria é fictícia, mas representa uma situação que ainda acontece com frequência: pessoas que descobrem uma doença renal avançada sem terem percebido claramente o seu desenvolvimento.
A melhor oportunidade de cuidar dos rins não é quando os sintomas aparecem. É antes deles.
A doença renal pode não causar dor, mas deixa sinais nos exames. Não espere o corpo gritar para começar a ouvir os seus rins.
Dra. Núbia de F. Moreira
Médica nefrologista — CRM-DF 17.970
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