Anderson Lopes
Viviane Areal,liderança e garra
Viviane ArealViviane Areal, empresária de sucesso, liderança e garra, é destaque d‘A Voz do Porto
Por Anderson Lopes
Descubra as lições de gestão e a obstinação inabalável da empresária à frente de uma das maiores redes de supermercados do Rio
AL - Viviane, aos 21 anos, você já estava à frente de um negócio em um setor predominantemente masculino. Em algum momento tentaram fazer você acreditar que era “nova demais” ou que não tinha capacidade para estar naquele lugar? Como você transformou essas dúvidas em combustível para chegar até 14 lojas do SuperPrix?
VA - Tentaram, sim. Nem sempre de forma direta, mas muitas vezes era aquela situação em que o fornecedor preferia falar com o homem que estava ao meu lado ou em que uma ideia minha precisava ser repetida por alguém mais velho para ganhar mais peso. Eu era muito nova, mas sempre soube que precisava conhecer profundamente o negócio. Então fui estudar, entender os números, conhecer os fornecedores, acompanhar a operação e, principalmente, aprender com quem estava no dia a dia da loja.
Nunca gostei muito de ficar tentando provar que eu era capaz. Preferi fazer o meu trabalho e com o tempo, as pessoas passaram a conhecer a minha forma de trabalhar e os resultados começaram a falar por si. Acredito que assim fui construindo meu espaço, através do conhecimento, trabalho e muita presença na operação.
AL - Você diz que sua verdadeira escola foi o “chão de loja”. Qual foi a maior lição que você aprendeu ali, no olho no olho com clientes e colaboradores, que nenhuma faculdade ou curso de gestão poderia ter ensinado?
VA - O chão de loja me ensinou a observar tudo. O cliente fala muito sem precisar dizer uma palavra. Está no que ele coloca no carrinho, no produto que olha e não leva, na fila que escolhe e até naquilo que faz ele voltar. E os colaboradores também ensinam muito, pois são as pessoas que vivenciam aquele ambiente diariamente. Quem está no caixa, no açougue, na padaria ou na reposição conhece a operação de um jeito que nenhum relatório consegue mostrar completamente. É preciso estar perto para entender o que os números estão dizendo. O indicador mostra que alguma coisa aconteceu, mas estar na loja ajuda a entender o motivo. Por isso, mesmo com o crescimento da empresa, eu nunca perdi esse hábito de ouvir quem está na ponta. Muitas das melhores decisões que tomamos começam justamente em uma conversa dentro da loja.
AL - Construir uma trajetória de quase 30 anos atravessando crises econômicas, mudanças no comportamento do consumidor e transformações no varejo exige muito mais do que gestão. Qual foi o momento mais difícil da sua caminhada e o que aquela Viviane, lá atrás, precisou descobrir sobre si mesma para não desistir?
VA - Foram vários momentos difíceis ao longo desses anos, porque o varejo é um negócio muito dinâmico. Tem crise econômica, aumento de custos, mudança no comportamento do consumidor, concorrência, e a operação não pode parar. Mas entendo também que os momentos mais difíceis foram aqueles em que eu precisei tomar decisões sabendo que elas impactariam muitas pessoas. Quando você cresce, a responsabilidade cresce junto. Foram nesses momentos que eu entendi que liderança não significa ter todas as respostas. Eu sempre fui muito de querer resolver tudo, mas aprendi que ouvir o time, dividir responsabilidades e reconhecer quando precisava de ajuda também fazia parte de liderar.
Desistir nunca foi uma opção que eu realmente considerei. Podia estar cansada, preocupada, sem saber exatamente qual seria o próximo passo, mas sempre existia alguma coisa para resolver no dia seguinte.
E o varejo ensina muito isso, você resolve o problema de hoje e começa a trabalhar no de amanhã.
AL - Em 2016, quando o e-commerce ainda gerava resistência no setor supermercadista, você decidiu apostar na inovação. Para uma empresária que começou literalmente no chão de loja, como equilibrar tecnologia e inovação sem perder aquilo que você considera o maior patrimônio do varejo: o relacionamento e a confiança das pessoas?
VA - Eu nunca enxerguei tecnologia e relacionamento como coisas opostas. Para mim, a tecnologia precisa facilitar a vida do cliente, não afastá-lo da empresa. Quando começamos a olhar para o e-commerce, a pergunta era muito simples: o cliente está mudando a forma de comprar. Então, como podemos acompanhar essa mudança sem perder aquilo que sempre fez parte do nosso negócio?
Supermercado é proximidade e confiança. Pontos que precisam existir independentemente do canal.
Se o cliente compra pelo site ou pelo WhatsApp, a expectativa de cuidado é a mesma de quando ele entra na loja. A escolha dos produtos, a qualidade, a entrega, tudo isso continua fazendo parte da experiência. A tecnologia ajuda a ser mais rápido, mais prático e mais eficiente. Mas quem entrega a experiência continua sendo gente. E acho que esse equilíbrio é fundamental para qualquer empresa de varejo.
AL - Hoje, olhando para uma operação com 14 lojas e mais de 1.300 colaboradores, o que mais emociona a Viviane: o tamanho que o SuperPrix alcançou ou a mulher que você precisou se tornar para construir tudo isso? E qual legado você gostaria de deixar para outras mulheres que ainda estão lutando para conquistar o seu espaço?
VA - Eu tenho muito orgulho do tamanho que o SuperPrix alcançou, claro. Mas, quando olho para mais de 1.300 colaboradores, não consigo enxergar apenas um número. Penso nas histórias de cada uma dessas pessoas. Tem gente que entrou muito jovem, teve o primeiro emprego com a gente e hoje ocupa uma posição de liderança. Isso, para mim, é uma das partes mais bonitas de construir uma empresa. E também tenho orgulho da mulher que me tornei. Hoje sou mais segura, mais tranquila para tomar decisões e também aprendi a ouvir muito mais. Mas tenho um carinho enorme pela Viviane de 21 anos, porque ela começou sem ter todas as respostas e foi aprendendo no caminho.
Para outras mulheres, eu diria que não esperarem estar completamente prontas para ocupar um espaço. Conhecimento é importante, preparo é importante, mas muita coisa a gente aprende fazendo. E nós mulheres temos essa capacidade muito aflorada. E, quando conquistarem esse espaço, não esqueçam de olhar para trás e abrir caminho para outras mulheres também. Acho que esse é um legado que vale muito mais do que qualquer número, deixar um ambiente em que outras mulheres possam chegar mais longe.



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