Luiz Carlos Torres
O Racismo e a Ofensiva contra o Quilombo Pedra do Sal
Membros da Comunidade sobre a Pedra Tombada e o Quilombo Armado. Desde Que o Samba é Samba:
Desde Que o Samba é Samba:
O Racismo e a Ofensiva contra o Quilombo Pedra do Sal
Por Luiz Carlos Torres*
O racismo que pauta os subterrâneos de nosso país, moldado e inepto frente à democracia racial simbólica, foi mantido em continuidade por uma venda em nossos olhos durante muitas gerações. Tudo para que alguns românticos de uma brasilidade cordial, por conveniência, acreditassem em sua extinção — perspectiva muito floreada pela narrativa simbiótica antropológica de Gilberto Freyre em seu Casa-Grande & Senzala.
Sabemos ser esse processo uma argumentação falida. O racismo duradouro, em seu empenho mais íntimo, não foi extinto pela Lei Áurea; a pressão dos quilombos, pouco difundida pela historiografia oficial do pós-abolição, também não deu cabo à sua existência. O passar do tempo e a suposta adequação natural de nossas vidas e demandas coletivas — na crença de que o tempo resolveria tudo — tampouco funcionaram.
O racismo nunca deixou de estar presente em nossas vidas pretas. Mesmo com a pauta progressista que o atual governo diz ter, e outros de mesma grandeza que se vangloriaram de atender contra o preconceito nítido no cotidiano de nossos campos e cidades, a estrutura permanece desde o fim do tempo escravista.
Progressismo para quem? Na fila de prioridade de um país moldado aos conceitos de uma elite colonial, aristocrática e burguesa, que caminha à paisana mesclando um descolamento comportamental com os vícios arrogantes de sua natureza de classe autoritária. Essa elite habita o poder desde que formou nossa identidade à sua semelhança caucasiana, com repúdio à africanidade e à sub-humanidade escravocrata que legou a africanos e seus herdeiros pela pauta do racismo.
Essa elite ocupa cargos e pontos de observação privilegiados (no poder ou em institutos acadêmicos) e, mesmo em um "descolamento oba-oba" — sambando e cantando por aí —, nunca perdeu a mão do que é: detentora da ordem que a formou, ainda que vestida com acessórios modernos e perfume francês para disfarçar o odor da alma que a produziu. Denunciamos esse perfil como fruto do racismo institucional, herança de um país pautado pela lógica da falsa democracia racial. Para o povo preto consciente, perpetuado pela ancestralidade na luta, isso não é surpresa.
Faço esta introdução para alertar o fogo cerrado dos racistas que hoje atacam a Comunidade Remanescente do Quilombo Pedra do Sal. O território foi atingido por um parecer de uma juíza da 24ª Vara Federal do Rio de Janeiro que, monocraticamente, buscou inviabilizar a confirmação da Pedra do Sal como quilombo, desconhecendo décadas de ações coletivas. Em 2005, o Estado Brasileiro reconheceu essa identidade; agora, vinte e um anos depois, uma decisão judicial tenta revogá-la.
Não pretendo pautar de forma linear as normativas jurídicas dos últimos trinta anos que ampararam a existência quilombola na Pedra do Sal, na Pequena África, na "Africabaianacarioca". Quem não entende o básico sobre esse território não deveria sequer questionar o que é ser um quilombola de lá. Um único parecer de um "historiador consultor", que reduziu a Pedra do Sal a um mero espaço de entretenimento e boemia, revela a inconsistência de um estudo pago para negar a história.
É urgente que sejam convocadas historiadoras como Hebe Mattos e Martha Abreu, além da antropóloga Eliane Cantarino O’Dwyer e da arqueóloga Tânia Andrade, cujos estudos sérios e fundamentados pelo INCRA solicitados a Universidade Federal Fluminense (UFF) e pelo Porto Maravilha legitimam o quilombo, o Cais do Valongo e o Trapiche Pedra do Sal. Espero que o tal consultor tenha feito o dever de casa de consultar quem, antes dele, elaborou os estudos preliminares que fundamentam essa titulação.
A sentença da juíza federal Itália Maria Zimardi Areas Poppe Bertozzi, baseada em um laudo pericial histórico duvidoso, alega que, embora a região tenha relevância cultural, as manifestações musicais e religiosas seriam apenas "patrimônio imaterial urbano”, insuficiente para caracterizar uma comunidade quilombola. Tal interpretação é uma piada viciada em retóricas ultrapassadas, sugerindo que no espaço urbano é impossível a constituição de um quilombo. Parece uma releitura dos expedientes da velha Ordem Terceira da Penitência, hoje ressignificada pelo nome Associação Lar São Francisco de Assis, na Providência de Deus, que há anos tenta negar a comunidade.
O racismo voltou contra a Pedra do Sal? Não. Ele nunca foi extinto. Apenas ganhou uma nova face e interesses econômicos mais predatórios e imobiliários. Mais uma vez, via judicial, ele "sai do armário" para defender a ordem colonial, aristocrática, religiosa e burguesa. O racismo no Brasil continua sendo contra o preto e, desde que o samba é samba, ele se confirma como dito pelas vozes de Gil e Caetano: o Haiti também é aqui.
*Luiz Carlos Torres é professor, compositor, escritor e poeta quilombola com identidade territorial na Pequena África no território da Pedra do Sal e da Primeira Favela
Por Luiz Carlos Torres*
O racismo que pauta os subterrâneos de nosso país, moldado e inepto frente à democracia racial simbólica, foi mantido em continuidade por uma venda em nossos olhos durante muitas gerações. Tudo para que alguns românticos de uma brasilidade cordial, por conveniência, acreditassem em sua extinção — perspectiva muito floreada pela narrativa simbiótica antropológica de Gilberto Freyre em seu Casa-Grande & Senzala.
Sabemos ser esse processo uma argumentação falida. O racismo duradouro, em seu empenho mais íntimo, não foi extinto pela Lei Áurea; a pressão dos quilombos, pouco difundida pela historiografia oficial do pós-abolição, também não deu cabo à sua existência. O passar do tempo e a suposta adequação natural de nossas vidas e demandas coletivas — na crença de que o tempo resolveria tudo — tampouco funcionaram.
O racismo nunca deixou de estar presente em nossas vidas pretas. Mesmo com a pauta progressista que o atual governo diz ter, e outros de mesma grandeza que se vangloriaram de atender contra o preconceito nítido no cotidiano de nossos campos e cidades, a estrutura permanece desde o fim do tempo escravista.
Progressismo para quem? Na fila de prioridade de um país moldado aos conceitos de uma elite colonial, aristocrática e burguesa, que caminha à paisana mesclando um descolamento comportamental com os vícios arrogantes de sua natureza de classe autoritária. Essa elite habita o poder desde que formou nossa identidade à sua semelhança caucasiana, com repúdio à africanidade e à sub-humanidade escravocrata que legou a africanos e seus herdeiros pela pauta do racismo.
Essa elite ocupa cargos e pontos de observação privilegiados (no poder ou em institutos acadêmicos) e, mesmo em um "descolamento oba-oba" — sambando e cantando por aí —, nunca perdeu a mão do que é: detentora da ordem que a formou, ainda que vestida com acessórios modernos e perfume francês para disfarçar o odor da alma que a produziu. Denunciamos esse perfil como fruto do racismo institucional, herança de um país pautado pela lógica da falsa democracia racial. Para o povo preto consciente, perpetuado pela ancestralidade na luta, isso não é surpresa.
Faço esta introdução para alertar o fogo cerrado dos racistas que hoje atacam a Comunidade Remanescente do Quilombo Pedra do Sal. O território foi atingido por um parecer de uma juíza da 24ª Vara Federal do Rio de Janeiro que, monocraticamente, buscou inviabilizar a confirmação da Pedra do Sal como quilombo, desconhecendo décadas de ações coletivas. Em 2005, o Estado Brasileiro reconheceu essa identidade; agora, vinte e um anos depois, uma decisão judicial tenta revogá-la.
Não pretendo pautar de forma linear as normativas jurídicas dos últimos trinta anos que ampararam a existência quilombola na Pedra do Sal, na Pequena África, na "Africabaianacarioca". Quem não entende o básico sobre esse território não deveria sequer questionar o que é ser um quilombola de lá. Um único parecer de um "historiador consultor", que reduziu a Pedra do Sal a um mero espaço de entretenimento e boemia, revela a inconsistência de um estudo pago para negar a história.
É urgente que sejam convocadas historiadoras como Hebe Mattos e Martha Abreu, além da antropóloga Eliane Cantarino O’Dwyer e da arqueóloga Tânia Andrade, cujos estudos sérios e fundamentados pelo INCRA solicitados a Universidade Federal Fluminense (UFF) e pelo Porto Maravilha legitimam o quilombo, o Cais do Valongo e o Trapiche Pedra do Sal. Espero que o tal consultor tenha feito o dever de casa de consultar quem, antes dele, elaborou os estudos preliminares que fundamentam essa titulação.
A sentença da juíza federal Itália Maria Zimardi Areas Poppe Bertozzi, baseada em um laudo pericial histórico duvidoso, alega que, embora a região tenha relevância cultural, as manifestações musicais e religiosas seriam apenas "patrimônio imaterial urbano”, insuficiente para caracterizar uma comunidade quilombola. Tal interpretação é uma piada viciada em retóricas ultrapassadas, sugerindo que no espaço urbano é impossível a constituição de um quilombo. Parece uma releitura dos expedientes da velha Ordem Terceira da Penitência, hoje ressignificada pelo nome Associação Lar São Francisco de Assis, na Providência de Deus, que há anos tenta negar a comunidade.
O racismo voltou contra a Pedra do Sal? Não. Ele nunca foi extinto. Apenas ganhou uma nova face e interesses econômicos mais predatórios e imobiliários. Mais uma vez, via judicial, ele "sai do armário" para defender a ordem colonial, aristocrática, religiosa e burguesa. O racismo no Brasil continua sendo contra o preto e, desde que o samba é samba, ele se confirma como dito pelas vozes de Gil e Caetano: o Haiti também é aqui.
*Luiz Carlos Torres é professor, compositor, escritor e poeta quilombola com identidade territorial na Pequena África no território da Pedra do Sal e da Primeira Favela



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