Odylo Falcão
Veredas de Pedras
Calçadão de CopacabanaObservando os passantesem seus trajetos, percebo que tanto o percurso feito de maneira calma ouapressada é percorrido sem perceber os detalhes abaixo de seus pés. Talvez sejaporque não tenhamos o hábito de contemplar aquilo que está horizontalmenteposto para que nossos olhos se fixem em belas experiências visuais esensoriais. As calçadas artísticas de pedra portuguesa carregam rara beleza deestilo rústico surgidas no Brasil em 1901, no Largo de São Sebastião, emManaus, e que guarda desenhos das famosas ondas que representam o encontro dosrios Negro e Solimões. A inspiração veio dos desenhos das ondas do calçadão daPraça do Rossio, em Lisboa.
A viagem no tempo émesmo instigante, e ver toda a produção dessa arte urbana que surgiu em seguidana calçada da Avenida Rio Branco, em 1905, e no calçadão de Copacabana, em 1909,é sem dúvida imaginar um jogo de formas tão pequenas se unindo para formar umacomposição única e cheia de significados. Em 1970, o arquiteto e paisagistaRoberto Burle Marx fez uma reinterpretação da composição da Praça do Rossio, emLisboa, tornando o calçadão de Copacabana mundialmente famoso. Outra composiçãoinspirada nas ondas portuguesas foi a bela arte de Renato Primavera Marinho,paisagista e arquiteto, criador dos padrões artísticos do calçadão de Ipanema,e que abrange os bairros do Arpoador e Leblon.
A arte das calçadas depedra portuguesa está por todas as capitais do país, mas é no Rio de Janeiroque se encontra a maior quantidade de obras do gênero. Essa arte me lembra odesenho de cordel, que também é feita sobretudo nas cores preto e branco, e deforma gestual, solta, com certa imprecisão de contorno e com desenhos bemestilizados e originais. Esses mosaicos portugueses de textura levemente ásperae antiderrapante embelezam as calçadas musicais de Vila Isabel, inaugurada em1965, com desenhos de partituras, instrumentos e nomes de compositoresbrasileiros. A ideia de transformar o piso em obra de arte é genial, cheia depossibilidades e abrangentemente elegante. Pedras no caminho levando osandantes a descobertas bem próximas e ainda não totalmente percebidas.



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