Nem Queiroz
Um Céu de Infortúnios
Miles DavisUM CÉU DE INFORTÚNIOS. A VIDA!
By Nem Queiroz
Assim que a vida (re)começa todos dias, todos os sentidos transbordam para fora de mim. Primeiro ao abrir os olhos, imediatamente o pensamento começa a funcionar, mesmo sem o meu comando, então percebo que ele não recebe ordem, que não sou eu quem comando, talvez ao contrário, ou talvez mutuamente, não sei, mas a verdade que eu pressinto é que somos de fato comandados. Por que sentimos vontade de levantar? É de fato um desejo nosso? Sentimos sede, vontade de ir ao banheiro, etc. A vontade! Nós a temos ou ela se impõe sobre nós?! Acho que nossas decisões, por menores que sejam, nascem primeiramente da vontade do corpo. E a vida lá fora? Começa ou continua a existir independente de nós (isso é claro e lógico), mas o que eu quero dizer é que, eu não sei mais o que eu quero dizer, não sou nenhum especialista, aliás, não sou especialista em nada, por exemplo, mesmo esta imensa vontade que eu tenho agora de escrever quando tenho tantas outras coisas para fazer, de onde vem?! Eu escrevo porque estou com vontade, mas essa vontade é realmente minha?! Dizem que existe uma deusa chamada Inspiração, e se ela não me visitar, eu não vou escrever?! E se eu escrever sem ela, se justificará as minhas idéias?! E as idéias? De onde vêm?! E nós?! Apenas captadores desses sentidos que de repente sequer nos pertencem?! Então o que somos nós?! Agora mesmo, nesta primeira hora do dia ouço ruídos lá fora que me incomodam. Pus um Miles Davis na vitrola, mas e os ruídos lá fora?! O caminhão que passa, pessoas que falam alto, o carro do vizinho que é ligado e em seguida acelerado, o cachorro que late, o latão de lixo que é arrastado pelo homem da limpeza, uma serra ao longe é ligada, homens que martelam a parede gritando um com o outro; o inferno nosso de todo dia do qual também fazemos parte. Da mesma forma que secretamente tudo me exaspera, deve haver gente incomodada com a minha música, e muitas vezes até com a minha presença, mas sou eu que não os suporto primeiramente, salvo raríssimas excessões. O que quero dizer com tudo isso? Ah, lembrei! Que faço parte disso tudo, num carrossel de acontecimentos diários que se estou vivo é porque a ele pertenço igualmente. Mas eu não suporto essa falta de paz que nem o sono me proporciona às vezes. Agora mesmo acordei de súbito e assustado. Estava tendo um pesadelo!
Mas a vida não é só esse inferno. Existe um céu, mas isso é um particular de cada um.
De repente tudo se acalma e a música de Miles se sobressai! Um segundo de paz para mil horas de infortúnios!? E se não fosse esses infortúnios, o que estaria eu escrevendo agora?! Outro dia saí de casa por causa disso tudo, e foi só por isso que encontrei o amor da minha vida, que mais tarde virou outro infortúnio! Porra, mas que inferno!



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