Mercadoria
Família Quilombola, comunidade remanescente do Quilombo Pedra do Sal Mercadoria
Luiz Carlos Torres*
O homem africano no Cais do Valongo mercadoria chegou.
D’África atlântica, aprisionado em tumbeiros, “coisa” virou.
E no mercado viu que por sua tez, só menos que ouro valia.
Assim nenhuma beleza na terra do algoz lhe trouxe alegria.
Esse sujeito, africano, despejado qual bicho nesse cais hostil.
Com pés, mãos, e o seu coração acorrentado, conheceu o Brasil.
Embrenhando terras, subira a serra com iguais pros sertões.
Pelo ouro e riqueza dos seus senhores que os viam como cães!
O homem africano nos tumbeiros aportou na beira do Cais.
No corpo toda a dor, na alma a saudade dos seus ancestrais.
Só as lágrimas nos olhos lhe pertenciam, além da memória.
E de resto, nada mais tinha de seu, até a escrita dessa nova história.
Esse sujeito africano, de cor preta e exposto à venda no Valongo:
Perde a humanidade, vira “coisa”, por vir da Guiné, d’Angola ou Congo.
Ele reinventou muitas Áfricas pelos Brasis, apesar do feitor, do algoz.
Ao se entender no revés. Ele fez da terra e do pranto, o canto de sua voz.
*Luiz Carlos Torres é professor,
compositor, escritor e poeta quilombola
com identidade territorial na Pequena África
no território da Pedra do Sal e da Primeira Favela






COMENTÁRIOS