CORAÇÃO CORTADO DUAS VEZES
Domingo, 13 de junho, no Centro do Rio CORAÇÃO CORTADO DUAS VEZES
By Nem Queiroz
Cena realmente de cortar o coração, só não pensei que me cortaria duas vezes.
Ao sair para ir ao mercado, na volta, antes de dobrar a esquina vi um senhor alto, magro, cabelos e barba brancas aparentemente bem feitas, comendo coisas do lixo, nessas caçambas da Comlurb que agora encontramos pelas calçadas onde passamos. Ele estava calmo, "beliscando" uns pedacinhos de frango que encontrou numa dessas sacolas que usamos para juntar lixo. Foi de doer o coração. Evidentemente, fiz o óbvio. Corri em casa, procurei algo à mão, que me fosse de ágil, prática e rápida ação, com medo de que ele não mais lá estivesse quando eu retornasse. E lá ainda estava ele! Catando com os dedos os pedacinhos do que parecia um Strogonoff, sei lá. Me aproximei com os olhos e coração aflitos, estava disposto a oferecer mais, um almoço mais tarde, sei lá. E ao estender a sacola com pão e duas bananas, depois de me apresentar, eis que tomo a segunda lapada no coração. - Bom dia, Senhor, lhe trouxe aqui algo fresco pra comer. E eis que ele simpaticamente, eu disse simpaticamente (!), agradece e recusa: - Não! Muito obrigado!
Fiquei atônito! É um lanche fresco, por que não?!
- Não, não precisa, repetiu ele, JÁ ESTOU COMENDO AQUI. Muito obrigado!
- Vou então deixar aqui, caso o Senhor mude de idéia!
- Não, por favor, não faça isso! Estou bem. Já estou comendo, não está vendo!?
- Sim, estou! Por isso mesmo! Vou deixar aqui então!
- Não! Não quero. Já estou comendo...
Atravessei a rua trêmulo de nervoso e piedade. Meu Deus, essa eu não entendi. Aliás, trêmulo, nervoso e sem entender nada dessa vida eu já estou a muito tempo!






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