Mulheres&Portos
IStock / Joel Carrilet O MAR TAMBÉM É NOSSO
Por Shana Carolina Bertol*
Participar de uma reunião em que as pessoas se expressam por termos que, à primeira vista, não parecem pertencer à pauta — como “terno”, “galinha” ou “quarteio” — já não é algo comum. Imagine, então, se esse é o seu primeiro dia de trabalho e você é a única mulher sentada à mesa.
Naquele momento, percebi que navegava por águas desconhecidas. Senti receio, mas a curiosidade em compreender o que existe além das marés e a vontade de enfrentar desafios falaram mais alto. Desde então, aprendi que o mar quase nunca é calmo — especialmente para nós, mulheres.
Um dos maiores desafios que enfrentamos é a maternidade, frequentemente colocada como antagonista da ascensão profissional. Muitas mulheres acreditam que precisam encontrar o “momento ideal” para engravidar, buscando antes estabilidade financeira e segurança na carreira. Mas a vida nem sempre respeita planejamentos perfeitos. Às vezes, é preciso corrigir a rota do navio e escolher bem a tripulação para seguir viagem.
Recebi a promoção que tanto almejava quando estava grávida de seis meses. Vivi uma gestação intensa, marcada por fortes emoções e jornadas exaustivas de trabalho. Nesse contexto, faço eco à frase de Cristina Junqueira, vice-presidente do Nubank: “Mulher é o mamífero mais produtivo do universo.”
E escolhas e renúncias fazem parte da rotina de mães que constroem uma trajetória profissional. Antecipei meu retorno da licença-maternidade. No batizado do meu filho, planejado para um domingo em família, fui surpreendida, às vésperas, por um telefonema informando o bloqueio indevido de milhões na conta de um cliente. O episódio exigiu trabalho intenso ao longo do fim de semana, e minha presença naquele momento tão significativo acabou sendo limitada.
Muitas mulheres irão se reconhecer nessas histórias. Essa é a realidade vivida por tantas — não por falta de competência, mas simplesmente por serem mulheres.
Naveguei por águas turbulentas e, em alguns momentos, quase naufraguei. Senti culpa por me achar despreparada para a maternidade e, ao mesmo tempo, insuficiente no exercício profissional. Hoje, compreendo que não preciso ser a “mulher-maravilha”. Não permito mais que a culpa fale mais alto quando a conciliação não acontece de forma perfeita. Dedicar-me ao trabalho não me torna uma mãe pior, assim como escolher a maternidade não diminui minha competência profissional. Temos a capacidade singular de transformar fragilidade e insegurança em força.
E mar calmo não forma boas marinheiras.
Chegar a essa compreensão não foi simples — e segue sendo um processo. Foi essencial dialogar com outras mulheres para entender que eu não estava sozinha nesse oceano. Foi assim que percebi o quanto ainda são incipientes as ações estruturadas de debate e reflexão sobre as trajetórias femininas, especialmente no setor portuário, onde as vozes das mulheres ainda são minoria.
É verdade que a presença feminina nos portos vem crescendo, mas de forma lenta e desigual. Dados da 29 Pesquisa de Gênero da ANTAQ, revelam que em 2024, as mulheres representam 17,8% da força de trabalho no setor, aumento de apenas 0,5 ponto percentual em relação a 2022. Quando o recorte se volta aos cargos de liderança, a disparidade se acentua — mesmo diante de estudos que indicam que, em média, as mulheres apresentam maior nível de escolaridade do que os homens.
Para nós, mulheres, o “gatilho da prova” costuma ser mais rigoroso.
No âmbito dos OGMOs — órgãos responsáveis pela gestão da mão de obra portuária —, dos 26 existentes no país, poucos têm ou tiveram mulheres à frente de suas diretorias executivas. O pioneirismo ocorreu no OGMO de Imbituba, que, em 2007, indicou Maria Zilá de Sousa Gil para a Diretoria Executiva, sucedida posteriormente por Jeanne dos Santos. O OGMO de Santos foi dirigido por seis anos por Sandra dos Santos Gobetti. Atualmente, além do OGMO de Paranaguá, o OGMO de Itaqui também conta com uma mulher na Direção Executiva, Ana Cláudia Barbosa, assim como o OGMO de Salvador, sob a liderança de Daniella Pinheiro.
Dados globais reforçam a urgência do tema. Segundo o Fórum Econômico Mundial, mesmo com avanços recentes, a projeção para a paridade de gênero no mundo ainda supera um século, resultado agravado pelos impactos da pandemia da Covid-19.
Essa realidade não faz sentido, inclusive sob a ótica econômica. Estudos internacionais demonstram que empresas comprometidas com diversidade e inclusão apresentam melhores resultados financeiros, maior capacidade de inovação e decisões mais qualificadas.
Temos mais de um século de história para transformar. Muitas organizações já compreenderam que equidade de gênero não é pauta acessória, mas vantagem competitiva. Cabe a nós, mulheres, fortalecer iniciativas que ampliem nossa inserção, consolidem redes de apoio e garantam respeito às nossas opiniões, direitos e visões.
Lutas em comum geram vitórias em comum.
Se todas enfrentamos tempestades em alto-mar, nada é mais potente do que compartilhar histórias, criar pontes e incentivar outras mulheres a se sentirem confiantes para navegar no universo portuário.
Porque faz tempo que estamos no mar.
E ele também é nosso.
*Diretora Executiva do OGMO/Paranaguá
Idealizadora e Diretora de Marketing e Comunicação – Mulheres C Portos Especialista em gestão da mão de obra portuária e liderança feminina no setor






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