Ser feminista independe de ideologia política
Mulheres & Portos
Foto: Portal Sorocaba
Foto: Portal Sorocaba QUAL É A SUA VOZ?
Por Shana Carolina Bertol* e Ana Cláudia Barbosa*
Muitas mulheres se sentem desconfortáveis em serem rotuladas como “feministas”. Seja por estratégia de sobrevivência no mercado de trabalho, pela cultura dominante no mundo corporativo, por preconceito ou desconhecimento, ainda persiste o estereótipo de que feministas são contra o casamento, a família, odeiam homens ou se consideram superiores a eles.
Para muitas mulheres, a alternativa tem sido se comportar como “um deles”, acreditando que, para alcançar sucesso profissional, precisam se encaixar — silenciando crenças, valores e convicções. Quando falamos nisso, vêm à mente as mulheres das gerações passadas que, não por escolha pessoal, mas para conseguir ingressar no mercado de trabalho, ocultavam sua feminilidade.
Avançar na carreira, alcançar cargos de liderança e ocupar espaços de decisão não é tarefa simples para nós, mulheres. Esse percurso quase sempre vem acompanhado de “piadas” e comentários pejorativos como: “teve sorte”, “ser mulher ajudou” ou “o que será que ela fez para ser promovida?”. Lamentavelmente, mérito, capacidade e competência são frequentemente desconsiderados, impondo às mulheres a necessidade de trabalhar mais, entregar mais resultados e ainda assim provar, repetidas vezes, que são capazes.
É a velha máxima: a régua para nós é sempre mais alta. E isso não é “mimimi”. Um relatório da McKinsey s Company já apontava que homens tendem a ser promovidos com base em seu potencial, enquanto mulheres são promovidas com base em resultados comprovados.
Casa, família, trabalho e estudos. Muitas mulheres desistiram ao longo do caminho por não encontrarem espaço ou apoio. Outras não têm escolha: são provedoras do lar e permanecem caladas diante de situações de desigualdade. Há ainda aquelas tão consumidas pela carreira que praticamente não possuem vida pessoal. O fato é que muitas mulheres vivem à beira do colapso, negligenciando a própria saúde física e mental.
Não se trata de afirmar que o simples fato de sermos mulheres garante reconhecimento profissional ou tratamento diferenciado. Falamos de mulheres que detêm mérito, competência e qualificação para ocupar posições mais altas, mas encontram barreiras salariais, limitações à promoção e julgamentos relacionados, inclusive, à necessidade de conciliar trabalho e família.
No Brasil, embora as mulheres representem 51,7% da população e apresentem maior escolaridade em nível superior (1G%, contra 15% dos homens), os dados do mercado de trabalho são alarmantes: apenas 3,5% das mulheres ocupam cargos de CEO; 37,4% estão em posições de liderança; e cerca de 50% são demitidas após a maternidade. Em média, as mulheres recebem 20,5% a menos que os homens no mesmo cargo. Além disso, têm maior probabilidade de atuar em empregos informais, mal remunerados e desvalorizados, o que amplia a exposição a abusos e violência, simplesmente por serem mulheres.
A discriminação de gênero não se perpetua apenas por leis excludentes, mas também pela ausência delas. Em 86 países, mulheres enfrentam restrições aos tipos de trabalho que podem exercer; em 18, os maridos podem impedi-las de trabalhar; 3G países limitam o direito das mulheres à herança; 36 negam às viúvas o direito à propriedade; G5 não garantem remuneração igual para trabalho de igual valor; e 5G países não possuem legislação específica contra o assédio sexual no ambiente de trabalho.
Diante desses dados, a reação não pode ser apatia. Se existe em você o desejo de ser livre para ser quem é, sem precisar se moldar para se encaixar; se acredita que o mérito deve importar mais do que o gênero; se defende igualdade de oportunidades — então, sim, você é feminista.
Ser feminista independe de ideologia política. Significa homens e mulheres trabalhando juntos para derrubar barreiras e preconceitos que ainda impedem o avanço feminino. Não está relacionado à orientação sexual, religião ou forma de se vestir. Feminismo não é oprimir homens — isso é “femismo”, um conceito distinto. Feminismo é o direito de escolha: decidir se e quando ter filhos, trabalhar fora ou dentro de casa, exercer trabalho remunerado ou não, ser dona da própria vida.
Como afirma Melinda Gates, a dominação masculina é prejudicial à sociedade porque qualquer forma de dominação é nociva. O desafio é ressignificar uma sociedade marcada por hierarquias falsas, onde poder e oportunidades ainda se subordinam a gênero, idade, riqueza ou privilégios — e não a talento, esforço e capacidade.
Não há desenvolvimento sem inclusão. Homens e mulheres são frutos de uma cultura patriarcal que, lentamente, começa a se transformar. Como analisam Raj Sisodia e Nilima Bhat, se o século XIX foi marcado pelo fim da escravidão e o XX pelo enfrentamento do totalitarismo, o grande desafio do século XXI será deixar de relegar as mulheres — e os valores femininos — a um papel secundário.
O desafio está em desconstruir a lógica de poder de um gênero sobre o outro, preservando as diferenças de competências, experiências e habilidades que enriquecem empresas, sociedades e o mundo.
A semântica importa, mas é a ação que transforma. Defender igualdade de gênero sem assumir o feminismo é contraditório. Como diz Maynara Fanucci, “é dizer que não bebe água, mas bebe H₂O”. Que mais mulheres — e homens, por suas mães, filhas, irmãs e amigas — assumam esse compromisso com orgulho, para que possamos unir vozes por um futuro de autenticidade, igualdade, inclusão e respeito.
*Shana Carolina Bertol - Diretora Executiva do OGMO/Paranaguá, Diretora Financeira da Academia Brasileira de Direito Portuário e Marítimo – ABDPM, Idealizadora e Diretora de Marketing e Comunicação – Mulheres & Portos;
*Ana Cláudia Barbosa - Diretora Executiva do OGMO/Itaqui, Idealizadora e Diretora de Desenvolvimento – Mulheres & Portos
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