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Teressa Fernandes

Dependência emocional

Teressa Fernandes
Dependência emocional

UMA MULHER PRISIONEIRA 

(sobre a fantasia amorosa ou dependência emocional)

Por Teressa Fernandes*

Via as pessoas voltando às suas casas, loucas por um banho, um cheiro de sabonete,  coisas familiares. O arrepio. Via a eles dois, lutando indefinidamente. A bondade e o egoísmo, o branco e o negro, o romantismo e o sarcasmo. Percebia  que ele   já não suportava essa perseverança. Mas Lia  tinha medo. Medo da solidão. De não conseguir concretizar planos e projetos, um sem o outro. Ela sem ele, sem seu olhar, sua atenção. Talvez fosse o amor disfarçado em uma das suas mil formas.

As pessoas são tão simples e tão cruéis, pensava Lia. Como acreditar nos vizinhos, nos transeuntes, naquele senhor idoso que descansava sob a cadeira, na calçada? Como acreditar  naquelas tuas maduras constatações sobre humanidade? Era uma guerra genuína e maluca entre casais, entre vizinhos pela alegria de manter princípios.

Um foguete atravessava um céu  carregado mas sem nuvens, sem nebulosidade. Lia e seu corpo assistiam da janela  o entardecer suave e agonizante, que morria com ela aos poucos. Como esses carros do bairro ecoando vozes de crianças buscando sinais e luzes. O entardecer trazia com ele um pouco de uma febre que anunciava cortesmente o profano e rotineiro dia de amanhã. Ela se acalmava nos entardeceres. Sufocava com a mudança lenta de cores e não se atrevia a acender a luz com medo de quebrar o encanto.Aí então talvez ele chegasse com suas notícias sobre pessoas interessadas no seu trabalho, no seu dom. Despertando Lia com seu encanto pessoal, para atirar-lhe com mãos de bondade no mundo quase primitivo dos corpos. 

A primeira luz da rua se acendia com sua fluorescência doméstica, dando às árvores um ar futurista. Os namorados iam encontrar-se para a troca excitante de beijos à entrada dos portões. As mães da vizinhança ficariam mais neuróticas com a insistência dos rebentos. Lia se deliciava em olhar pela janela as outras janelas que se iluminavam, revelando mais das intimidades alheias. Onde uma janela esconderia um grito assustado de um poema, um sentimento obscuro de quem vê o mundo com outros olhos sempre iluminados? Escutava um choro que era um grito de protesto e dor de uma criança, cortando o tempo. Detalhes. Levando ao óbvio  doméstico do  estar vivo. Gritinhos. Manhas.

Será que ele viria a tempo de encontrar-lhe estranhamente às escuras, trazendo-lhe a esta guerra, a este duelo de personalidades, na incansável ilusão do amor dos casais?

Ficava no escuro e quase já não conseguia escrever, escutando as impertinências da criança. Crianças que faziam  orgulho de suas mães reencontradas. Seria seu o reencontro, quando ele por fim entraria cansado, carregado de problemas insolúveis? Arrastando sua sempre tenaz vocação para a perseverança, com os olhos doces e nervosos por não conseguir entender a busca de Lia. Por algum lugar que ela nunca encontrava. 

Seria seu  o reencontro,  o medo de entender se seu caminho deveria ter esse destino, depositado neste homem e nesta noite que chegava? Destino que lhe fazia enterrar uma mulher livre e despertar uma mulher amorosa e prisioneira. Será que esta noite lhe revelaria? Se ele não viesse passaria semanas enterrada na tristeza, no vazio de uma existência projetada no outro.

*Teresa Fernandes é psicanalista (CBO 2515.50) e atua no Instituto Brasileiro de Psicanálise e também faz atendimento social via whattsapp: (21) 995679237 Email: psicanalistateressafernandes@gmail.com




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