Trabalhadoras Portuárias Avulsas Desbravam Mares e Assumem Funções Antes Exclusivamente Masculinas
Porto de Paranaguá / Portos Paraná O Mar Também É Delas!
Trabalhadoras Portuárias Avulsas Desbravam Mares e Assumem Funções Antes Exclusivamente Masculinas
Por Shana Carolina Bertol*
Durante muito tempo, entre guindastes, contêineres e navios, a figura masculina era a única reconhecida como capaz de operar, liderar e resistir às exigências do trabalho portuário. Mas essa narrativa vem sendo transformada por mulheres que romperam o silêncio e estão abrindo caminhos para outras. As primeiras mulheres Trabalhadoras Portuárias Avulsas (TPAs) são exemplo disso. Sua presença corajosa em postos antes considerados “de homem”, reafirma uma verdade fundamental: o mar também é delas.
A mudança histórica tem sido testemunhada no Porto de Paranaguá com a inclusão de mulheres em funções tradicionalmente masculinas no contexto dos Trabalhadores Portuários Avulsos (TPAs). Essas mulheres têm conquistado espaço em atividades como estivador, arrumador e vigia, rompendo barreiras de gênero no ambiente portuário. Até pouco tempo atrás, o porto contava com aproximadamente 1.700 TPAs, dos quais apenas duas mulheres atuavam na função de conferente, evidenciando a predominância masculina nas operações portuárias.
Esse cenário começou a mudar com a realização de um processo seletivo promovido pelo Órgão Gestor de Mão de Obra (OGMO) de Paranaguá, que aprovou 37 mulheres. O processo seletivo contou com 7.415 inscritos, dos quais 870 eram mulheres (11,73%). Dentre as aprovadas, destacam-se 14 estivadoras, 2 arrumadoras, 15 conferentes e 6 vigias. Um dos aspectos mais notáveis desse processo seletivo foi a inclusão do critério de desempate favorável ao gênero feminino, visando incentivar a ocupação de funções tradicionalmente masculinas.
E como diz o ditado: “mar calmo não faz boas marinheiras”. As irmãs gaúchas Eduarda e Fernanda Garcia da Costa que se tornaram as primeiras mulheres a atuar como estivadoras no cais do Porto de Paranaguá, contam que em sua primeira escala de trabalho, enfrentaram as exigentes tarefas de carga e descarga de um navio de sacaria, superando as expectativas de quem duvidava de sua capacidade. Eduarda compartilhou: “Foi gratificante começar diretamente na carga de sacaria, pois alguns colegas duvidaram que conseguiríamos, pensando que nos dariam tarefas mais leves.”
Esses mares também estão sendo desbravados por outras estivadoras em diversos portos do país. Um movimento em prol da ampliação da presença feminina nas atividades portuárias vem ganhando força por meio do grupo “Estiva em Movimento”, que retrata o cotidiano das mulheres estivadoras nos portos do Brasil. O grupo funciona como uma rede de apoio, acolhendo e incentivando essas trabalhadoras. Vânia Renovato, estivadora no porto do Rio de Janeiro, uma das idealizadoras dessa iniciativa afirma: “Eu aconselho mesmo às mulheres a virem para o porto e superarem seus limites, ao invés de pensarem que não são capazes".
A trajetória dessas pioneiras não é apenas um episódio isolado: é símbolo da luta feminista por igualdade. Ao exigir seu espaço nos portos, essas mulheres desafiaram uma lógica secular de exclusão e abriram portas para que novas gerações ocupassem funções que antes lhes eram negadas por questão de gênero.
Dizer que “o mar também é delas” não é apenas uma frase de efeito. É uma afirmação política. Significa reconhecer que as mulheres têm direito aos mesmos espaços, aos mesmos salários, às mesmas oportunidades e à mesma voz. Significa lutar por condições igualitárias de trabalho, por ambientes seguros e respeitosos, e por reconhecimento institucional.
Portos modernos não se constroem apenas com guindastes e navios; constroem-se com justiça, inclusão e diversidade. Essas mulheres mostraram o caminho. Elas não apenas desbravam mares: reivindicam pertencimento. E nos mostram que porto não é lugar de exclusão, mas de chegada, acolhimento e transformação.
Porque o mar é delas. Sempre foi. E seguirá sendo, na medida em que a luta feminista continue a romper as ondas do preconceito e abrir caminhos para a equidade.
*Diretora Executiva do OGMO/Paranaguá
Idealizadora e Diretora de Marketing e Comunicação – Mulheres & Portos Especialista em gestão da mão de obra portuária e liderança feminina no setor






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