Sombra do Passado
Conexão Porto
Temos um Mar a Ser Conquistado!
Por Shana Carolina Bertol*
A cultura de masculinidade e patriarcado nos portos atravessa gerações. Antes da Lei de Modernização dos Portos (Lei nº 8.630/1993), a profissão de trabalhador portuário avulso era tradicionalmente transmitida de pai para filho. Quando o descendente era mulher, a indicação, muitas vezes, recaía sobre o genro, reforçando um ciclo histórico de exclusão feminina.
À luz daquele contexto, o ambiente predominantemente masculino encontrava justificativa no uso intenso da força braçal nas operações de embarque e desembarque. O trabalho portuário exigia vigor físico extremo e grandes contingentes operacionais. Com a evolução da logística portuária, a mecanização das operações, a automação e a criação de um arcabouço legal específico, a figura do “Sansão do cais” e a lógica hereditária da profissão ficaram no passado. No entanto, a sombra dessa herança cultural ainda se projeta sobre o presente.
Se, em nível global, o fechamento do gap de gênero pode levar mais de 130 anos, no setor portuário o cenário é ainda mais desafiador. Dados da UNCTAD indicam que apenas 18% das vagas portuárias no mundo são ocupadas por mulheres. Na Europa, os números são mais alentadores: cerca de 25% de participação feminina no total, 39% nos cargos de direção e 16% nas funções operacionais — demonstrando que avanços são possíveis quando há políticas consistentes.
No Brasil, a pesquisa mais recente da ANTAQ, com base em dados de 2024, revela que as mulheres representam 17,8% da força de trabalho portuária, percentual praticamente inalterado ao longo do século XXI. Apenas 15% dos cargos de direção são ocupados por mulheres; nos Conselhos de Administração, a participação feminina é de 17%. Nos níveis intermediários, 25% atuam em funções gerenciais, enquanto apenas 10% estão inseridas na área operacional, evidenciando barreiras estruturais à ascensão feminina, sobretudo nos espaços de decisão e poder.
Para ingressar e permanecer no setor, as mulheres ainda precisam transpor uma cultura fortemente masculinizada, presente tanto na beira do cais quanto nos centros decisórios. A falta de ambientes adequados, o preconceito, o machismo e a escassez de políticas inclusivas reforçam esse cenário. Um exemplo concreto é o processo seletivo do OGMO/Paranaguá para trabalhadores portuários avulsos: do total de 7.415 inscritos, apenas 15,64% eram mulheres, revelando como a exclusão começa antes mesmo do ingresso.
Avançar exige ações estruturantes e contínuas: programas de ações afirmativas, transparência salarial — considerando que as mulheres ainda recebem, em média, cerca de 20% a menos que os homens —, políticas de capacitação profissional, combate efetivo ao assédio e a outras formas de violência, fortalecimento do compliance e canais de denúncia seguros. Não se trata apenas de ampliar oportunidades, mas de reconhecer que a diversidade torna os portos mais produtivos, inovadores e sustentáveis.
A sombra do passado ainda representa um desafio na construção de um porto onde mulheres tenham mais espaço e voz. Mas o futuro é uma página em branco que exige ações concretas para eliminar barreiras — muitas vezes invisíveis — e vieses inconscientes que ainda dificultam, ou até impedem, a inserção e o avanço profissional das mulheres no setor portuário.
*Diretora Executiva do OGMO/Paranaguá - Idealizadora e Diretora de Marketing e Comunicação – Mulheres & Portos Especialista em gestão da mão de obra portuária e liderança feminina no setor.






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